quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A fé perceptiva e sua obscuridade





"De agora em diante, tudo parece claro, a mistura de dogmatismo e de ceticismo, as convicções enevoadas da fé perceptiva são postas em dúvida, não mais creio ver com meus olhos coisas exteriores a mim que as vejo: são apenas exteriores ao meu corpo, não ao meu pensamento, que sobrevoa a ambos. Além do mais, já não me deixo impressionar pela evidência de que outros sujeitos percebedores não vão às próprias coisas, que suas percepções se passam neles - evidência que termina por repercurtir em minha própria percepção, já que, enfim, aos olhos deles, sou "um outro", e meu dogmatismo, comunicando-se aos outros, retorna para mim como ceticismo - se é verdade que, vista de fora, a percepção de cada um parece encerrada em algum reduto "atrás" de seu corpo, essa vista exterior é precisamente colocada, pela reflexão, entre fantasmas sem consistência e pensamentos confusos."
M. Merleau-Ponty



Quando crianças percebemos antes mesmo de entender o que é a palavra "pensar", ou ao menos o que é uma palavra. Projetamos nossos sonhos nas coisas, pensamentos nos outros, formando com eles um bloco de vida comum, onde as perspectivas de cada um ainda não se distinguem.

A nossa percepção nos dá a fé num mundo, o qual temos a bárbara convicção de irmos às coisas.

Graças a nosso início de vida, já com ilusões introspectivas e com ausência de condições para que o mundo seja percebido, é praticamente nula a nossa chance de escapar da obscuridade da fé perceptiva.

Todos nós atingimos o mundo e o mesmo mundo, ele é todo para cada um de nós, sem divisão, nem perda, porque é o que pensamos perceber.

Desta forma, é bem verdade que percebemos a própria coisa, já que a coisa nada mais é do que aquilo que vemos, porém vemos apenas a "coisa" - pensamento, simbolo o qual nosso imaginário cria condições para que seja percebido. É uma resposta nossa de acordo com o que é que tenhamos estudado.

O real esta possuído por uma dependência recíproca com o pensamento - enxergamos os objetos pela metade, ou fantasmas - pré-coisas, que desaparecem quando passamos à visão real, voltando para dentro da coisa como a sua verdade meridiana -, ambos sem consistência alguma. O seu ícone, o mundo visível, nunca modifíca-se, porém o seu significado pelo qual enxergamos é dissimulado em cada mundo privado, de modo único condicionado pela fé perceptiva.

Os mundos privados tem capacidades de comunicarem-se entre si - esta comunicação transforma-nos em testemunhas de um mundo único, como a sinergia de nossos olhos nos detém numa unica coisa.

Eis este rosto bem conhecido, este sorriso, estas mudulações de voz, cujo estilo me é tão familiar como eu o sou a mim mesmo. Talvez em muitos momentos da vida o outro se reduza a este espetáculo para mim. Em algum lugar atrás desses olhos, atrás desses gestos, ou melhor, diante deles, ou ainda, em torno deles, vindo de não sei que fundo falso do espaço, outro mundo privado transparece através do tecido do meu, e por um momento é nele que vivo, sou apenas aquele que responde à interpretação que me é feita.

A menor retoma da atenção nos convence de que esse outro que nos invade é todo feito da mesma substância: nossas cores, nossa dor, nosso mundo, precisamente enquanto nosso, como os conceberia, senão a partir das cores que vemos, das dores que temos, do mundo em que vivemos? Pelo menos, o mundo privado deixou de ser apenas individual; é, agora, instrumento manejado por outro, dimensão de uma vida generalizada que se enxertou nesta.

Cada ser habita a sua própria ilha, não havendo transição de uma à outra, sendo mesmo de se admirar que concordem algumas vezes sobre uma coisa qualquer.

Tais mundos privados, não são "mundos" a não ser para seu titular, eles não são o mundo. O único mundo, isto é, o mundo único seria o real (que está apenas parado, esperando a nossa observação e o verdadeiro entendimento), e não é sobre ele que se abrem nossas percepções, mas sim sobre o mundo simbólico, o qual nosso imaginário traduz.

Meu corpo não percebe, mas é como se estivesse sido construído em torno de uma percepção que se envidencia através do próprio.

Não devemos contar apenas com as nossas visões, mas também com as que outros teriam de si e de nós. Nosso corpo encenador da nossa própria percepção, deve destruir a ilusão de uma coincidência de nossa percepção com as próprias coisas.

Entre cada ser em sua ilha e as próprias coisas, existem poderes ocultos, toda uma vegetação de fantasmas, que só é compreendida e dominada no ato frágil do olhar. Sem dúvida, não é inteiramente nosso corpo que percebe, mas sei que ele é capaz de impedir-nos de perceber, não sendo possivel perceber sem a sua permissão; No momento em que a percepção surge, ela se apaga diante de si, e nunca percebe o seu próprio ato de perceber.

Os estímulos da percepção não são as causas do mundo percebido, mas são eles que as revelam, isto é, o conflito entre o imaginário e o real não são as causas do mundo visível, mas são eles que tiram o véu diante nossos olhos ingênuos.

A incredulidade e a crença estão estreitamente ligadas, um germe de não verdade dentro da verdade. A certeza que tenho de estar vinculado ao mundo por meu olhar já me promete um pseudomundo de fantasmas, se o deixar errante, isto é, não souber entender o fato.

Tapar os olhos para não ver um perigo é, não acreditar nas coisas, acreditar somente no mundo privado; no entanto, é antes acreditar que o que é para nós o é absolutamente para tudo e todos, que um mundo que temos a certeza de ver sem perigo é sem perigo; isso é portanto acreditar da maneira mais firme, que nossa visão vai às próprias coisas.

Essa experiência talvez seja capaz de ensinar, melhor que qualquer outra, o que seja a presença perceptiva do mundo - não, o que seria impossível, afirmação e negação da mesma coisa sob a mesma relação, juízo positivo e negativo, mas ir além do juízo.

É a experiência de habitar o mundo por meio de nosso corpo, ou seja, ter a fé perceptiva de que a verdade somos nós, sem que seja necessário escolher, nem mesmo distinguir entre a segurança de ver e a de ver o verdadeiro, pois são por princípio a mesma coisa - portanto fé, e não saber, uma vez que o mundo aqui está separado do domínio que temos sobre ele, sendo, ao invés de afirmado, tomado como evidente, e ao invés de revelado, não dissimulado.

4 comentários:

  1. Eder, mais uma vez parabéns.
    adimiro muito vc, o texto está muito legal, compelta o que eu disse no meu texto, não acho que tudo possa ser verdade, sendo que as pessoas são livre para acreditar, ou não.
    Mas devemos buscar o conhecimento sobre tudo...
    Mais uma vez Parabéns...

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  2. Daniel Hardt Lima16 de maio de 2009 18:13

    interessante a sua percepção do conceito de percepção, sendo que seu artigo novamente não passa de uma "persepção" minha da sua persepção sobre a percepção (isso ficou meio enrolado, mas acho que deu pra entender).
    acho que você já deve conhecer a chamada 'filosofia da mente', que busca entender o que é a mente, a consciência, entre outros... mas caso isso seja uma novidade, existe um site interessante sobre isso:

    www.filosofiadamente.org

    e parabéns pela iniciativa de um "video filosófico", até mais, abraço.

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  3. Você fez uma colcha de retalhos do Merleau-Ponty para poder compreender seu texto. Não seria mais fácil apresentar uma síntese?

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  4. Como assim tentar entender Merleau-Ponty?
    Seria mais fácil para que?

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