quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O MURO


O que o álbum de Roger Waters quer dizer?

O álbum, a música, o filme, a subjetividade e o pensamento que restou para a humanidade pretendem dizer muito. Ambos se completam, mas pouco é compreendido.

Vou tomar a liberdade de tratar sobre o que Roger Waters quer dizer com sua obra, contextualizando cada parte da mesma. Posso afirmar que “The Wall” é uma aula de estética semiótica, sendo preciso conhecer todo o repertório simbólico para que se possa ter, sequer, noção da genialidade da obra.

A ideia de The Wall, “O Muro”, tornou-se maior do que o próprio criador, é a arte utilizada como ferramenta da filosofia.

Tudo começou em 1977, no estádio Olímpico de Montreal...

Durante este show, Roger Waters, baixista da banda Pink Floyd, esmurrou um jovem que estava fazendo estardalhaço na frente do palco em que tocavam.

Roger Waters sempre foi um músico intelectualizado, dedicava-se à construção de letras, harmonias e apresentações que pudessem transformar as pessoas, enquanto quase sempre o público estava apenas preocupado com a festa e diversão, principalmente nos dias próximo ao acorrido. Segundo Waters,

"...foi uma experiência muito depressiva, pois a maioria das pessoas não conseguia ver ou ouvir nada, tinha todo tipo de obstáculo entre o público e o palco. As pessoas estavam fazendo o seu próprio show soltando fogos de artifício uns contra os outros. E, conforme a turnê prosseguia, me sentia cada vez mais alienado das pessoas que eu estava entretendo. Tinha um cara em particular na primeira fila que estava realmente se divertindo, gritando e se jogando em cima de todos. E acabei perdendo a paciência quando terminei seguindo-o e assim que cheguei perto o suficiente, dei um tapa na cara dele...".

Todo este peso que Waters carregava nas costas foi o motivo primeiro que o levou a agir de tal modo. Mas quando tudo passou, acabou pensando consigo mesmo: “O que estou fazendo? O que está acontecendo?”

Percebeu que o que tinha feito não fazia sentido algum. Este foi o canalizador para que Roger Waters começasse a escrever a peça. Waters percebeu que estava se transformando em um monstro.

"...Waters percebeu que estava se transformando em um monstro...."

Desde o início, a ideia do baixista era a de montar um álbum, um show e um filme disso tudo.

Idealizava um muro que atravessasse o palco, que seria construído durante todo o show. Na segunda parte do show, já não seria possível vê-los, e o show terminaria quando “o muro” estivesse separando totalmente o público da banda (Pink Floyd). Mas Waters achou que possivelmente seria muito agressivo, pensou também que talvez o derrubaria no final do show e que teriam que existir cenas animadas do lado de fora do muro.

A obra cinematográfica não é apenas sobre a ideia inicial de Roger Waters, “The Wall” não se trata apenas do muro, mas também de resíduos do passado de Roger Waters e de outras pessoas das quais Waters lembrava-se. E como quase toda grande obra cinematográfica, "The Wall" foi feito em grupo, juntamente com o diretor Alan Parker e o jornalista designer gráfico (animador) Gerald Scarff. A filosofia de Roger Waters diz que se você convida um artista para fazer algo, você não pode disputar com aquilo que ele está fazendo. É por isso que você o contrata. Waters se sentava e lhes dizia sobre o que se tratava e ambos imaginavam e davam suas perspectivas sobre o que interpretavam da mente de Waters.

O filme trata da vida de “Pink”, que é meio autobiográfica segundo Roger Waters. Não pelo fato de Waters começar a quebrar coisas de hotéis e coisas assim, mas por experienciar algumas pessoas que conheceu neste meio o fazerem. Teria um pouco de Syd Barret lá dentro também – como a raspagem de todos os pêlos do corpo.

Filme "The Wall"
Segundo Alan Parker, o filme é sobre um astro do rock, sendo escravo de muitos shows, muita gente e drogas, sentado lá se desintegrando em um quarto de hotel qualquer, pensando sobre sua vida. 

O passado leva "Pink" à uma suposta crise e depressão, que o aprisiona a valores que lhe causam dor por não aceitar sua vida - o estado de seu casamento, morte de seu pai na 2º Guerra Mundial, medo da loucura, da alienação e opressão.

Esses são um dos possíveis muros pessoais que construímos ao nosso redor, e os muros que são erguidos na sociedade, construída a partir da alienação causada entre um e "o outro".

O resultado culmina em um pesadelo ardiloso, que explode com a introspecção de sua vida e o conduz a derrubar este muro negando quaisquer semblantes de vida.

"The Wall" é estudo do processo de alienação. Mostra como a experiência negativa da infância afetou a perspectiva de Pink . E assim que vai alcançando a maturidade, podemos acompanhar a construção gradual das barreiras (defesas) imaginárias. Como nós, uma vez ou outra, desenvolvemos para nos proteger do mundo hostil do lado de fora. No caso de Pink, o resultado é traumático.

Cada detalhe de "The Wall" é muito rico e complexo, controlado com muito cuidado - para poder expressar claramente a ideia. Quando as pessoas o assistem, confundem muito as suas cabeças, pois o assunto foi tão bem tratado que não há espaço para dúvidas e mau entendidos sobre o que realmente é.

As esteiras rolantes onde as crianças são jogadas pelo professor e por fim caem em um moedor de carne, onde são moídas com um simples girar de manivela, representam a escola que nos é imposta.

Parte das imagens são apresentadas de forma surrealista, interpretadas através de animações, e mostram uma perspectiva subjetiva do oprimido ao engrandecer os opressores e deixar os fatos com ares de pesadelo.

A escola empurra as crianças para lugar algum, em direção nenhuma. E estando dentro daquilo, não se tem uma perspectiva real do que realmente isso é – que foi em grande parte uma peculiaridade abordada por Gerald Scarff. Todo esse rancor (o próprio muro), alimentou os desenhos de Scarff – todos bem assustadores.
 
A escola que Waters estudou tinha alguns professores decentes, segundo o próprio, mas era uma exceção. Waters lembra-se de que a escola tinha certo interesse em manter a ordem e garantir a entrada em universidades.
Ainda assim havia muitas regras, e a educação era baseada na vergonha:

"...Havia um monte de gente sórdida e sarcástica na escola, tentando controlar os garotos os colocando para baixo...."  Roger Waters

Voltando à obra cinematográfica, o diretor de fotografia, juntamente com o animador, deixou que a “realidade” tomasse conta da obra, se adaptando ao que era necessário em um filme que possui ligações de cenas reais virando animação e o contrário.

Um desses eventos são as flores animadas, que é uma tentativa de Scarff, o animador, de mostrar a natureza de um relacionamento entre um homem e uma mulher. No começo do relacionamento, a ternura e vivacidade, com o desenvolvimento, de acordo com o tempo, a distância e infelicidade, e por fim o aparecimento dos “muros”, até o momento em que um devora o outro. 

Os símbolos, referências fascistas-nazistas, são uma possibilidade para qualquer um que tenha poder, em determinada situação, e assim possa construir e agir a partir de seu "muro", onde e como queira. Esta foi a sensação facista-nazista que Roger sentiu ao cometer o incidente que gerou The Wall.

A animação ao lado acontece no momento em que Pink é julgado. O juiz é representado como um verme, e ao mesmo tempo um bundão, pois é essa a concepção que Pink (Scarff motivado por Charles Dickens) enxerga de um representante da lei.

Alguém que se veste de peruca e discursa através de seu orifício e denuncia tudo (neste caso, julgamento de Pink e seu envolvimento com drogas e comportamento doentio).

Representa-se a forma do governo titular tijolos na sociedade para manter a "ordem social", que Scarff vê agir como uma grande bunda que só faz soltar excrementos sobre o povo - ditando regras.

E todas as animações que surgem como um surto de alucinações, surgem da mente de Pink como que num modo de exteriorizar tudo o que sentia sobre o mundo.

A música “The Wall” é dividida em quatro partes, que definem de modo geral a ideia do “Muro”. Mas o albúm todo é muito mais esclarecedor.

Em "The Thin Ice" (O Fino Gelo) Roger Waters refere-se aos pais como principais criadores dos "muros" dos filhos. Significa que os pais transmitem seus valores aos filhos, criando medos, desejos, sonhos e preconceitos na mente das crianças, que não passam do modo como seus pais veem o mundo. As crianças, assim, acreditam e julgam um mundo que não conhecem. O resultado é o preconceito, distúrbios (contradições) de personalidade e barreiras no desenvolvimento cognitivo.

A segunda parte da música diz que a criança que torna-se um adulto vivendo atrás de "muros" "patina no gelo fino da vida moderna", ou seja, pisa sob um solo escorregadio, que pode espatifar a qualquer momento sob seus pés. É forçado a viver com traumas e dor que não lhe pertencem. E que só tem o gelo fino (sociedade) para se agarrar, assim, uma luta perdida, de dor e angústia sem fim.
 

Agora sobre a principal música do albúm que é dividia em quatro partes, Another Brick in the Wall (Part 1), The Happiest Days of our Lives, Another Brick in the Wall (Part 2) e The Wall (Part 3):
 

Waters fala de sua infância, quando seu pai foi embora e o deixou apenas uma memória através de uma fotografia em um albúm de família. E se questiona o que mais o deixou, e conclui que todo esse sentimento que sente é apenas um tijolo em seu "muro" - barreira onde se esconde do mundo.

"...apenas um tijolo em seu "muro" - barreira onde se esconde do mundo...

A segunda parte começa com um professor gritando energicamente para um aluno: 

"Você! Sim, você! Fique parado laddy!". Laddy significa princesa, menininha (em gíria). Assim, o professor grita com o aluno na frente de todos.   

O nome desta parte da música,
"The Happiest Days of our Live", (Os dias mais felizes da minha vida) já indica, ironicamente, o que Roger Waters quer dizer. 

Waters diz que quando crescemos e vamos para a escola existem certos professores que machucam as crianças de todas as maneiras que eles podem. Zombam de suas decisões, e desprezam os alunos sobre qualquer coisa que fazem, expondo toda a fraqueza cuidadosamente escondida pelas crianças. 

No entanto, nada acontece simplesmente, tudo é conhecido, diz Waters, quando esses professores chegavam em casa à noite, suas gordas e psicopatas esposas os infernizavam em cada centímetro de suas vidas. E este é o motivo canalizador do comportamento deste professor, e, no entanto, podem existir vários outros. Todos são apenas a reação a seus próprios muros.  

Uma marionete de um homem apanhando de uma mulher enquanto bate em uma criança, parte do filme, é uma clara definição de o que é “O Muro”.

O significado é que qualquer ato considerado como “maldade”, ou qualquer conceito semelhante, na verdade é parte de um processo anterior que impulsiona a determinada reação a condição humana.

Em meio às três partes da música, o refrão afirma que não precisamos de nenhuma educação, nenhum controle de pensamento, nem sarcasmo na sala de aula, não precisamos aprender nenhum valor - nem criar muros. Diz para que os professores de valores deixem as crianças em paz, pois que, no final, ao todo, você e tudo é apenas mais um outro tijolo no muro.

 
Na última parte da música, Waters diz que não precisa de braços ao seu redor, amparar-se no amor ou sexo, que não precisa de nenhuma droga para o acalmar, que ele já percebeu "o muro" e sabe que não precisa de coisa alguma. Não está disposto a ser mais um a se esconder da vida por trás dos muros.

No filme, Pink é mandado para a guerra (animações da guerra simbolizadas por cruzes desenhadas no lugar de típicos aviões alemães), assim mais uma vez é forçado pela vida que lhe cria mais muros ao voltar da experiência. Logo quando volta é que inicia a sua crise, quando não consegue suportar tantos tijolos em seu muro.

Quando fala-se sobre traumas, valores, preconceitos, medos e desejos, estamos falando dos muros que nossa vida acabou criando em nossa realidade como forma de nos proteger de um fardo experiencial, como diria Ernest Becker. Os muros preenchem os espaços vazios na mente de uma pessoa sobre algo.

Não deixe que um muro te arranque a liberdade.
Vingue-se da vida, quebre o muro.

2 comentários:

  1. Fantástico o post!!!!

    Vou assistir o show mais bem informado da grandiosidade da obra.

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  2. Puts, que legal que vcs voltaram a atualizar! E que postagem maravilhosa!
    :)
    Dá vontade de assistir de novo. Vou indicar!
    Abraços!

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