quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Crença na Crença


Segundo o filósofo Daniel Dennet, houve um momento em que nossos antepassados passaram a refletir sobre suas crenças e julgaram que as entendiam (ou ao menos entendiam o que elas tinham de mais importante). A partir daí, ao acharem que a crença era algo bom e necessário, o ato de acreditar na crença passou a se disseminar na sociedade, e manter a crença tornou-se algo essencialmente primordial, mesmo quando isso entrava em conflito com certas ideias e princípios já estabelecidos.

Quando alguém se compromete com uma ideia, ocorre um processo onde essa ideia original é sobreposta por reações e metarreações de defesa.

A maioria de nós acredita na democracia, por isso cita-se a frase de William Churchil - “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que já foram tentadas até agora”, ou seja, sabemos que a democracia não atende a todas as necessidades, mas é a melhor entre as ideologias já tentadas - e a defendemos nas adversidades.

Acreditamos na ciência e afirmamos com convicção que e=mc2 (Teoria da Relatividade, de Einstein), mesmo quando não sabemos exatamente o que isso quer dizer – temos físicos que sabem e a eles delegamos a tarefa de nos provar que isso é verdadeiro.

Obviamente, essas são crenças apoiadas por fortes argumentos. Pois nós temos o direito de participar e opinar sobre os atos políticos - já que eles afetam as nossas vidas - e as fórmulas científicas têm resultados absurdamente precisos quando postos em prática.

O niilismo é a crença em nada, associada ao extremo pessimismo e o ceticismo radical. A ideia do Eterno Retorno (de Nietzsche) afirma que a vida é a mesma sempre, com a eterna recorrência de guerras, epidemias, paz, dor, prazer, angústia, etc. Segundo histórias, essas duas crenças teriam dado ao filósofo Friedrich Nietzsche a inclinação para o suicídio.

Para alguns, essa foi a prova suficiente de que precisamos acreditar em algo para querermos estar vivos (mesmo a origem desta sendo uma história discutível e não comprovada a respeito de Nietzsche). Assim, a crença de que a crença é importante foi mais amplamente disseminada.

Por isso, muitas vezes quando alguém que tem um mínimo de censo crítico é questionado sobre religião, é comum a resposta: “Claro, nós sabemos que isso é impossível, é um pensamento retrógrado e infantil... mas as pessoas precisam disso”.

Mas será que as pessoas realmente precisam disso?

Quando uma pessoa perde a fé em deus ela não conta aos amigos, parentes, nem sequer deixa de ir à igreja, simplesmente continua vivendo sua vida do mesmo modo como o fazia antes, ou muitas vezes (por achar que há algo de errado com ela) procura outro tipo de religião que a faça retornar à crença.

Essas pessoas acreditam firmemente que a crença em deus é algo a ser preservado e quando acham que algo está errado, simplesmente não desistem de continuar tentando. Para essas pessoas, a revisão das crenças é um processo perturbador que gera comoção e um medo sem denominação – é o sentimento deprimente da perda de convicção, que, supostamente, deve ser combatido vigorosamente.

Essa ideia de que existem mitos que devem ser mantidos a qualquer custo entra em conflito com o nosso ideal em busca de saber a verdade, e de dizer a verdade, que algumas vezes gera resultados lamentáveis.

Um exemplo disso é a crença de que a crença na igualdade das raças deve ser promovida independentemente de ser verdadeira ou não. O racismo é um mal da sociedade e por isso muitos afirmam que a crença em qualquer diferença entre as raças é prejudicial e deve ser evitada, mesmo quando verdadeira.

Porém, existem dados clínicos claros de que pessoas de etnias diferentes são sujeitas a diferentes tipos de doenças e reagem diferentemente a medicamentos, mas isso acaba sendo considerado fora de cogitação para pesquisadores e financiadores, o que perversamente evita linhas de pesquisa pertinentes e prejudica a saúde, mental e física, de muitos desses grupos étnicos em questão.

Quando você acredita em algo, acredita também que todos que não acreditam estão errados, o que gera diversos conflitos que poderiam ser resolvidos, ou apaziguados, com um mínimo de bom-senso.

Porém, as crenças metafísicas não compartilham (na maioria dos casos) desse bom-senso, por motivos óbvios. As pessoas que possuem esse tipo de crença não admitem opiniões contrárias ou mesmo questões acerca do que acreditam (na maioria dos casos a ousadia de alguem em duvidar das crenças já é motivo suficiente para reações enérgicas dos que acreditam). Além disso, para a grande maioria dessas pessoas, a crença é algo digno de se dar a vida por ela.

Aí diferem-se as crenças citadas anteriormente (democracia, ciência, igualdade das raças – embora alguns extremistas possam estar presentes em todos os campos) e este é um ponto a ser observado:

Eu acredito que e = mc2, mesmo sem conseguir chegar a esse cáculo, mas isso porque Einstein não apenas disse isso, foi além e provou com uma precisão espantosa o que sua teoria afirmava, e com um pouco de estudo e dedicação, podemos entender como ele fez isso. Mas, definitivamente, eu não estaria disposta a morrer por isso.

O que acontece é que quando a crença entra em ação, passa a não ser apenas algo da pessoa, mas a possuí-la. E essas pessoas seriam capazes de dar a vida por suas crenças, mesmo que elas estejam erradas - o que nem passa por suas cabeças.

5 comentários:

  1. eh... crenças extremas são sempre um problema... mto bom o texto... jah ouvi falar desse filosofo mas nunca me aprofundei, vou procurar saber mais... bjs a vcs do blog!

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  2. Bom, todo mundo tem mania de querer fazer oq os outros fazem, "seguir o rebanho", hj em dia ninguem quem ser diferente, apenas melhor, mas dentro do padrao normal.. por isso acho q com as crenças ia ser igual.. acredto q pensem "todo mundo acredita, pq eu nao vou?" ou " se acreditam deve ser bom pra eles"..
    enfim, a vida das pessoas eh praticamente acreditar na crença dos outros.
    Parabens de novo, muito interessante o blog e os assuntos daqui.

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  3. Ótimo texto.Pra falar desse tema tem que ter coragem.Sem sombra de dúvida e pude comprovar em mim mesmo que a função de crer paraliza a nobre função de pensar.A crença foge da análise da razão.E acabamos negando a nós mesmos como seres inteligentes.Conheço uma escola que utiliza um método todo voltado para auxiliar o desenvolvimento humano sem a "bengala" da crença.
    Fundação Logosófica
    http://www.logosofia.org.br

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  4. A crença realmente impede o pensamento racional e é muitas vezes aprisionadora. Muito legal essa foto, e o texto muito bem escrito, parabens, gostei muito do blog e voltarei mais vezes com certeza. Bjs

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