Neste momento, o Brasil vive um acontecimento diferente de qualquer outro em toda a sua história. Uma insatisfação reprimida e acumulada canaliza-se na forma de uma série de manifestações por todos os cantos do país através de todos os tipos de pessoas.
Neste texto, abordaremos a
política com olhos não partidários e trataremos dos motivos pós-modernos da
atitude coletiva que vem sendo tomada pela nossa sociedade.

Em geral, as manifestações
têm como objetivo demonstrar ao poder ou sistema instalado o descontentamento
social.
Historicamente, quanto maior o número de pessoas que participarem da
manifestação, maior o êxito da mesma.
MOVIMENTO PÓS-MODERNO
Contudo, suponho que esta
não seja qualquer manifestação, mas um movimento pós-moderno. O mundo já vem se
desenvolvendo a algum tempo com o que é chamado de pós-modernismo. Este tem como princípio a desvalorização dos conceitos ideológicos.
Nele, a sociedade passa pelo desapego geral de modelos dogmáticos que,
supostamente, definiam toda a vida de uma pessoa.

E, em toda transição,
anteriormente à mudança, passamos por uma crise. Um estado de crise pode ser um
ótimo modo de entendermos ou interpretarmos estas manifestações. Uma crise é a
indicação de determinada situação que não é mais suportável, onde uma atitude
de mudança é necessária. Este estado não aparece ao acaso, mas se desenvolve
lentamente através de um processo, transparecendo quando se torna insuportável.
Dentre
as justificativas para o que vem gerando a pós-modernidade, a formação de uma
sociedade global, desenvolvendo um caráter policultural a partir de hiperinformações,
é considerada o motivo primordial, segundo estudiosos como Stuart Hall, Jean
Baudrillard e Manuel Castells.
CRISE
DE REPRESENTAÇÃO

O sistema político é apenas mais um que está sendo afetado.
Como
é conhecido que o Estado é a representação e o espelho de seu povo, a política,
que organiza e rege o mesmo, tende a modificar-se com seu povo.
Neste
novo modelo, que tem como princípio a transitoriedade, “tudo vale”, ou quase
tudo, e todos os discursos são válidos. Não há mais padrões estritos
para representar a realidade, resultando numa crise de representação ética,
estética, entre outras.
Uma característica
interessante deste movimento é a ausência de objetivo específico. Enquanto
algumas pessoas saem às ruas defendendo questões particulares, outras saem,
simplesmente, por sentirem uma angústia em suas próprias vidas, mesmo que não
saibam a razão – sendo as manifestações um ótimo motivo para se expressarem,
canalizando tudo o que sentem.

O professor de filosofia
política, Paulo Omeno, compreende que em toda a História dos movimentos de
manifestações, as pessoas sempre uniam-se a algo e sabiam contra quem lutar – a
ditadura pode ser um bom exemplo no Brasil – mas este movimento é diferente de
qualquer um outro até então no nosso país.
O jargão “Vocês não me
representam!” pode simbolizar, muito bem, a face deste movimento.
REALIZANDO MANIFESTAÇÕES
É bom notar que os
brasileiros estão aprendendo a fazer manifestações. Outros
países, especialmente a Espanha, já chegaram a este estágio social um pouco
antes do Brasil.
Em 2011, houve uma sequência de manifestações na Espanha,
chamado de Movimento 15-M – nome este relacionado ao início das manifestações,
15 de maio. O acontecimento realizou-se através de uma série de protestos em
dezenas de cidades da Espanha, espontaneamente organizados nas redes sociais.
Semelhante
ao movimento brasileiro, trataram-se de protestos pacíficos que reivindicaram
mudanças políticas e sociais, onde os manifestantes, com questões heterogêneas,
em essência consideraram que os partidos políticos não mais os representavam e
buscavam profundas mudanças no modelo democrático vigente (atual).
Pesquisas
indicam que estes protestos aparecem num momento em que a juventude está
academicamente mais preparada do que nunca. Com esta habilidade, percebem que
os partidos políticos pensam somente em si mesmos.
E esta característica nos
leva a uma questão antiga, contudo, ainda não resolvida.
FILOSOFIA
POLÍTICA
Sócrates, na obra “A
República” de Platão, século IV a.C., já pensa sobre esta questão, dizendo:
“Homens honestos não
querem assumir o governo nem por dinheiro nem por honrarias. Na realidade, não
querem ser considerados mercenários que exigem abertamente um salário, nem
querem ser considerados ladrões ao tirá-lo de modo secreto de seu encargo. Como
não são ambiciosos também não querem governar pelas honrarias.”

De qualquer forma, o que Sócrates pretende dizer é que os
homens justos não aceitariam tal posição, enquanto os injustos governam por si
próprios e não por seu povo ou eleitores. Logo, parece que a forma de governo
conhecida como “República” possui, em princípio, um difícil problema com seus
líderes de governo.
Os governantes não
realizam sua função de bom grado, por perceberem um ideal nobre no que fazem,
ao contrário, um salário é exigido. E quem pretende exercer bem a própria arte
não realiza, nem impõe, seu próprio interesse, na medida em que comanda em função de sua arte, mas no interesse de quem está subordinado a ele. Por esta
razão, segundo me parece, é preciso recompensar, com dinheiro ou honras, a quem
aceita comandar ou impor-lhe uma punição se não governa.
Contudo, o homem honesto
considera honrarias e dinheiro desonrosos para fazer aquilo que lhe é caro.
Assim, ao governo sobram os injustos.
O injusto é aquele que não
sabe, o homem ignorante. Por isso não é justo. A sua incapacidade atrapalha e
confunde a sua noção de justiça. Por fim, é tido como mau, por parecer não se
importar com sua injustiça.
CONSEQUÊNCIAS
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De qualquer modo, pode ser dito que o povo está aprendendo a se defender.
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